Felicidade não é só graça, é caminho também. É caminhar na beira-mar catando conchas bonitas. Em alguns momentos encontraremos várias, em outros nenhuma. Mas as conchas encontradas estarão guardadas conosco, nos dando força, consolo, sentido e vontade de persistir em busca. Se mantivermos elas não somente nas mãos, como também em mente.
Bagagens sendo arrumadas, e a iminência de uma ditosa ida. Táxi se dirigindo ao aeroporto, e as comuns lembranças tardias se fazendo presentes, nesse caso em específico um suéter preto. Modelando tempo e espaço, meu inconsciente (re)criava a mais desejosa viagem. Possivelmente a mais memorável. Fragmentos de memórias se costuravam e fizeram minha mente saborear cada detalhe minúsculo de uma saudosa narrativa hipotética. Difícil sonhar com uma boa viagem e não estremecer de vontade de fugir de casa.
E esse é o perfil de meus últimos sonhos. Meu cão, coitado, é mal visto e compreendido, mas muito amado. Só tem contato com as pessoas mais próximas de mim: familiares, irmãos, partes de minha pessoa. Que compartilham das mesmas inquietações, pra não dizer angústias, de cara. Nuances farejáveis, de merda. No sonho encontrava meu cachorro quase completamente decapitado na privada. Vivo ainda. Não consegui sonhar o suficiente.

Preciso que me entendas.

Pois estou partindo. Mais uma vez. Minha tão esperada, almejada nova jornada de novas perspectivas, conhecimentos e - principalmente - o mais doce descanso encontra-se perto do vértice final e não tive coragem de te dizer o quanto nosso encontro passou a me afligir, fazendo meu pensamento muitas vezes voltar tempo e espaço para o que começou e resumiu-se à custódia do acaso. Se tivesse te contado, talvez não haveria sido o único. E assim minha viagem de volta não estivesse envolta em sentimentos de calvário.

Difícil discernir caça de caçador numa festa lotada de homens gays.

Naquela noite de Britneys e Madonnas, nos espreitamos. Nos farejamos. De longe rimos por nos flagarmos em discrição. Dois homens em tempos diferentes, mas ávidos em encostar um no outro na pista de dança e se fazendo progressivamente perceber disso. Procurando meios de chegar a cada momento mais próximos, numa corte ritualística. E depois do suave suspense, numa roda de gente eufórica, nos tocamos a primeira vez num beijo em trio, culminado em nós. A cada vez que penetravas minha boca com tua língua viva, e minha boca ao receber tua língua viva penetrava em recíproco, ou trocávamos nossas vivências em palavras e atitudes de conquista com maturidade e segurança, sentia um incrível impulso de te possuir em-sabe-se-lá-como. Nos impregnamos em purpurina performática. Nossas improvisadas coreografias e sorrisos se estendiam em ciclos viciantes infinitos.

GaGa resolveu dar o seu bis, e - não nascidos como ela - fomos embora.

Quanto ao que houve depois da festa, durante e depois da fuga, entendo tua surpresa quando aceitei prontamente teu convite em passar o resto da noite contigo, em tua cama. Mas preciso tentar te falar mais uma coisa com eficácia, e a cada vez que minhas palavras ecoarem na tua cabeça, tu chegue mais perto de compreender: não é de ti minha partida, e sim do nosso frágil e fugaz ninho de uma noite, projetado com a rapidez de nossas decisões, executado a medida que nos permitimos carinhos a cada instante mais intensos e concretizado numa explosiva catarse erótica, da qual nossos corpos - cansados e nus - finalmente se permitiram descansar e usufruir do calor corpóreo e tranquilidade de um novo - e precocemente em crise - lar.

Perceba. Tão logo chegamos e já tivemos de lidar com uma despedida.

Tu tiveste de ir de nossa aresta em pouquíssimo tempo. Tão logo nos afastamos dela, e nossas novas feridas se tornaram perceptíveis. Nos mutilamos tanto durante a derradeira noite, e não notamos! Esses cortes são consequência da dureza do vivido, que só dói e machuca quando percebe a possibilidade - nesse caso - do frágil ninho ser levado pelo vento das circunstâncias… e o restante da viagem foi de descobertas turísticas, sociais e pessoais cercadas de incertezas. Agradáveis encontros de universos virtuais com planos e devaneios em demasia.

Eu. Tu. Nós.

Ao partir, sei que posso observar a todo o momento da janela, mas de onde estiver a paisagem mudará o tempo todo. Em nuances de novas luzes, relevos e cores de coisas. Tudo será diferente. Estando a caminho de casa, reparo o quanto fostes gentil em deixar que a realidade me mostrasse com fluidez nossa separação. Foi assim. Entretanto, insisto: em ti permaneço. Nosso passado, somente, será guardado em alguma gaveta. Pois pessoas não são épocas. Não as deixo pra trás. Nossa belíssima e pequenita vivência, cheia de esperança, ficará no mundo das lembranças.

E um novo vento, talvez, tornará possível essa aventura no futuro.

Fora de área.

Ligações (e o anseio por elas), desencontros e algumas espectativas cercam o dia de possibilidades e os nervos querem respostas. O corpo se mostra necessitado em encontrar-se com a brisa de uma boa caminhada em parceria pela cidade, ou um programa qualquer. E a manhã é sacudida - inicialmente - por um banho gelado. Uma lâmina de barba. Um comichão. Um diálogo telefônico (modelo genérico):

_Ei. Bom dia.

_Bom dia… mande (?).

_Ligo pra saber como anda tua missão hoje (note o desconforto gerado pelo termo, logo o clima cortês esgotou-se).

_Ah, vou almoçar com uns amigos - lugar ‘x’ - de lá pretendo ir pra casa.

A falha do pressuposto. Um encontro havia sido marcado para este dia, e uma resposta evasiva demonstra o desinteresse em tornar qualquer coisa possível, e o desconforto começa a ultrapassar o limite do aceitável.

_Certo. Me ligue quando chegares. É possível que eu já esteja por perto (em algum momento, o antagônico interesse em se fazer presente tem de surgir, mesmo que de modo simbólico, casual).

_Tudo bem… beijo (algumas formalidades são desnecessárias).

_Outro (…), se cuide.

Pois vários descuidos já ocorreram neste hermético jogo do querer. Neste caso, o infeliz, após a ligação, arrumou o dia e a si em função desta ligação, e do pressuposto anterior de um encontro que não ocorreu (satisfatoriamente). Ele tornou a possibilidade de estar perto da residência da pessoa uma lei e por lá se estabeleceu, justificando sua permanência com as atrações das proximidades, ou com as pessoas queridas que encontrou. Num impulso, liga:

_Fora de área. Merda.

Vai,
Resolve,
Volta.

Dolorosa Faxina.

faxina

Neste banheiro fedido eu choro profundas mágoas. Neste cubículo fechado para o mundo, aonde todas um dia já choraram, minhas feridas abertas - que formarão quelóides - consumirão todos os sentidos, e tornarão meu peito frágil por tempos, já não bastando as entranhas.

Mágoas não chegam inexplicadas.

Elas são fruto de morte. Ele se foi.

De final. Meu primogênito se foi.

Morto. Não tive coragem de vê-lo. 

Em meio a esse odor de urina e sangue, o organismo tenta colocar o resto do meu fracasso materno para fora, regurgitando as circunstâncias mal digeridas sob a forma de lágrimas e recrutando cada músculo para agir, devido a necessidade urgente de eliminar qualquer traço demoníaco deixado pelo passado do corpo abortado.

Preciso mudar meu quarto. Lá já tinha até bercinho. Roupinhas e fraldas do enxoval que ganhei no chá, e neles agora só resta saudade. Ele foi embora, arrancado de mim com violência contrária ao parto, contrária ao desígnio do mundo. Minha vontade. Aqui não quero mais ninguém, só meu filho.

E essa dolorosa faxina, forçada, terei de fazer sozinha. Vou embora daqui.

Redenção.

Montado em minha jovem égua, e longe de qualquer cidade, parada ou destino final, me deparei com uma silhueta sinistra. Um monstro bizarro, disforme - imóvel - de expressão congelante. Sua forma humanóide lembrava um homem escuro em andrajos. Se não fosse tão gigante, teria a certeza de que fosse um.

Meu amigo, tremi na base. Imaginei a jornada indo ao fim em instantes! Tantos vilarejos, e vidas que ajudei passando pelos olhos, como nos conhecidos relatos! O demônio encarou-me como quem avaliasse a alma, e perfurou-me o espírito, lhe juro! Mal consegui desembainhar meu sabre após tamanha demonstração de imponência:

_ Tu. Tu és nobre como homem, mas teu nome foi manchado por tua esposa. Ela te acusa, por não amá-la. Por rejeitá-la. E entregou a mim sua alma em troca de justiça.

Aquela megera! “Justiça”, ele disse! A ira me consumiu Esquilo, e a lâmina brandiu pelo sangue daquela criatura! Contudo, a velha égua, já habituada aos encontros nocivos e vilanias dos caminhos, desviou-se durante a investida. Só me restou aproveitar o impulso para saltar, e cravar minha arma no ventre do gigante escuro:

_ Eu fiz tudo. Tudo! Me arrependo de coisas, mas jamais a coloquei em posição de duvidar de meu amor, isso é obra tua, lacaio da Besta! - e enquanto falava, triturava a barriga dele, e me regozijava em ver minha honra sendo vingada.

Tinha planejado absolutamente toda jornada no mapa, mas jamais pensei que de meu lar partiria tamanho obstáculo. Cada passo tomado havia sido cuidadoso, como tudo em minha vida, que vivo à minha maneira. A criatura aproveitou a proximidade oportuna para golpear-me com o braço, e voei vários metros adentro à mata. Foi irreal!

Só precisava de mais alguns segundos para golpeá-la e arrancar as maldições que brotaram de sua garganta. Mesmo se contorcendo em  dores e vômitos, arrancou o sabre de seu ventre pútrido, o jogou em direção da amedrontada égua e gruniu suas pavorosas frases:

_ O sangue da vida que tua mulher tinha no ventre irá salvar-me de tua ira, nobre guerreiro! Não perca tempo tentando me impedir de viver de tua desgraça, pois teu único filho já se foi. E digo único porque não terás mais nenhum em toda a existência. Esta é a justiça para quem reprime o gesto do amor. A perda.

Ah, meu amigo, eu fiz tudo! Não disse, talvez devesse tê-lo feito! Chamado o monstro de volta, mas fiz tudo à minha maneira. Como poderia adivinhar o que deveria dizer a minha mulher? Ou para o demônio? Se não sou eu mesmo, não sou nada! Eu digo o que sinto, e não sou de ajoelhar. Muito menos digo palavras de quem se ajoelha!

Esquilo, registro contigo minha desgraça e minhas lágrimas, partes da derrota ocorrida. Diga a ela se quiser, pois lá não voltarei. Enquanto minha falha me corroer os tímpanos, meu peito, e de meus colhões não jorrar mais vida, não sossegarei em minhas cobertas. Não me abrigarei mais em seu corpo.

Está escrito. Em algum lugar deste caminho estará minha redenção.

Ancestral.

Certos assuntos familiares - como as próprias memórias - somente são citados em situações específicas do cotidiano sob o estímulo de algum lugar ou comemoração, e viagens de convívio são um prato cheio para as lembranças…

Durante o retorno de mais uma breve visita à praia, num verão assalariado, tive a oportunidade de ouvir novamente um diálogo acerca do passado de nossa família. Fatos, lugares e pessoas que vi, ou não, mas tudo tão vivo na mente dos interlocutores! Acabei guardando muitos dos detalhes, nomes e situações invocados, principalmente se tratando de parentes já finados.

Meu avô por parte de mãe é ricamente lembrado por meu pai em viagens de carro, por exemplo, e desta vez não foi diferente. Durante uma severa discussão entre ele e tia Ambrosina sobre o uso da via na cidade de Timboteua como melhor caminho de Salinas com destino à Belém, seu nome acabou surgindo.

Vô Jarbas viveu e morreu como motorista para empresas, ou para si como taxista, e levou um enorme conhecimento do oficio consigo. Ele conhecia qualquer via para todos os lugares aos quais tinha rodado, e usando suas palavras, papai tem o respaldo para finalizar praticamente qualquer conversa, acrescentando um tom de admiração em seu discurso:

_ Ele não só dirigia bem como não fechava os olhos ao volante! Certa vez ele disse: “Da feita que tenho um destino, não durmo até chegar lá”.

Infelizmente não recordo dele ao volante, entretanto, lembro de vovô o suficiente para compreender o tom de papai ao falar dele dirigindo, e da sua maneira de conduzir, como patriarca, uma família que segue progredindo mesmo após sua partida.

Forçadamente, o ancestral descansa, mas nas memórias continua atento!

Por ora.

Na varanda de uma pequena casa - ainda em construção - em uma estreita e rústica vila escondida na Ilha de Cotijuba, próxima às ruínas da casa de uma antiga figura da região, de sobrenome Barata, encontra-se um refúgio feito de alvenaria, e naquele momento cercado de criaturas e mosquitos sanguinários, porém vulneráveis à ação do repelente e mosquiteiros utilizados pelo jovem rapaz recém-bronzeado e seus colegas de aventura, instalados por lá desde a manhã.

Após um considerável entretenimento, somados à forte presença do Rum, ele se encontrava deitado e coberto com o lençol dos pés à cabeça, numa rede de campanha, e tendo de entender por dignidade a manutenção seus dedos longe das teclas do celular. Foi obrigado pelo pudor a fechar seus olhos, engolir a saliva latente e esperar o imenso sentimento de falta sentido durante o belo dia na praia tornar-se inconsciente.

Ele desfez seu olhar - furiosamente fixo - e a vontade de ir às portarias, calçadas de rotinas não-suas, de proferir palavras portadoras da paz à ansiedade, mas finalmente conseguiu ponderar o suficiente para acalmar o espírito ferido. Tentando relaxar, enfim.

Porém, o ruído dos mosquitos somados ao da respiração alheia gerou uma perfeita atmosfera de caos sonoro, contundente o suficiente para atazanar seu sono. Seu frágil equilíbrio estava por um fio, contudo, a quantidade de álcool circulando em seu corpo era consideravelmente forte, o suficiente para calar a ansiedade, os predadores e os outros sonhadores. E caindo no sono, pensou:

_Por ora, me calarei. Deixarei o impulso falar n’outro dia, quando inteiro estiver.

Pois ele sabe. Não há necessidade de mascarar o coração na sobriedade, mostrando suas verdades - magicamente oportunas - somente quando o organismo tenta se livrar delas como num vômito embriagado. Deste modo, as palavras brotam sem relevantes chances de equívoco ou exagero, límpidas…

Mesmo quando apenas escritas.

Despejos dialéticos, denominações derivadas.