Dolorosa Faxina.

Neste banheiro fedido eu choro profundas mágoas. Neste cubículo fechado para o mundo, aonde todas um dia já choraram, minhas feridas abertas - que formarão quelóides - consumirão todos os sentidos, e tornarão meu peito frágil por tempos, já não bastando as entranhas.
Mágoas não chegam inexplicadas.
Elas são fruto de morte. Ele se foi.
De final. Meu primogênito se foi.
Morto. Não tive coragem de vê-lo.
Em meio a esse odor de urina e sangue, o organismo tenta colocar o resto do meu fracasso materno para fora, regurgitando as circunstâncias mal digeridas sob a forma de lágrimas e recrutando cada músculo para agir, devido a necessidade urgente de eliminar qualquer traço demoníaco deixado pelo passado do corpo abortado.
Preciso mudar meu quarto. Lá já tinha até bercinho. Roupinhas e fraldas do enxoval que ganhei no chá, e neles agora só resta saudade. Ele foi embora, arrancado de mim com violência contrária ao parto, contrária ao desígnio do mundo. Minha vontade. Aqui não quero mais ninguém, só meu filho.
E essa dolorosa faxina, forçada, terei de fazer sozinha. Vou embora daqui.
- September 22 2010 | - Comments - Read More →


