Preciso que me entendas.

Pois estou partindo. Mais uma vez. Minha tão esperada, almejada nova jornada de novas perspectivas, conhecimentos e - principalmente - o mais doce descanso encontra-se perto do vértice final e não tive coragem de te dizer o quanto nosso encontro passou a me afligir, fazendo meu pensamento muitas vezes voltar tempo e espaço para o que começou e resumiu-se à custódia do acaso. Se tivesse te contado, talvez não haveria sido o único. E assim minha viagem de volta não estivesse envolta em sentimentos de calvário.

Difícil discernir caça de caçador numa festa lotada de homens gays.

Naquela noite de Britneys e Madonnas, nos espreitamos. Nos farejamos. De longe rimos por nos flagarmos em discrição. Dois homens em tempos diferentes, mas ávidos em encostar um no outro na pista de dança e se fazendo progressivamente perceber disso. Procurando meios de chegar a cada momento mais próximos, numa corte ritualística. E depois do suave suspense, numa roda de gente eufórica, nos tocamos a primeira vez num beijo em trio, culminado em nós. A cada vez que penetravas minha boca com tua língua viva, e minha boca ao receber tua língua viva penetrava em recíproco, ou trocávamos nossas vivências em palavras e atitudes de conquista com maturidade e segurança, sentia um incrível impulso de te possuir em-sabe-se-lá-como. Nos impregnamos em purpurina performática. Nossas improvisadas coreografias e sorrisos se estendiam em ciclos viciantes infinitos.

GaGa resolveu dar o seu bis, e - não nascidos como ela - fomos embora.

Quanto ao que houve depois da festa, durante e depois da fuga, entendo tua surpresa quando aceitei prontamente teu convite em passar o resto da noite contigo, em tua cama. Mas preciso tentar te falar mais uma coisa com eficácia, e a cada vez que minhas palavras ecoarem na tua cabeça, tu chegue mais perto de compreender: não é de ti minha partida, e sim do nosso frágil e fugaz ninho de uma noite, projetado com a rapidez de nossas decisões, executado a medida que nos permitimos carinhos a cada instante mais intensos e concretizado numa explosiva catarse erótica, da qual nossos corpos - cansados e nus - finalmente se permitiram descansar e usufruir do calor corpóreo e tranquilidade de um novo - e precocemente em crise - lar.

Perceba. Tão logo chegamos e já tivemos de lidar com uma despedida.

Tu tiveste de ir de nossa aresta em pouquíssimo tempo. Tão logo nos afastamos dela, e nossas novas feridas se tornaram perceptíveis. Nos mutilamos tanto durante a derradeira noite, e não notamos! Esses cortes são consequência da dureza do vivido, que só dói e machuca quando percebe a possibilidade - nesse caso - do frágil ninho ser levado pelo vento das circunstâncias… e o restante da viagem foi de descobertas turísticas, sociais e pessoais cercadas de incertezas. Agradáveis encontros de universos virtuais com planos e devaneios em demasia.

Eu. Tu. Nós.

Ao partir, sei que posso observar a todo o momento da janela, mas de onde estiver a paisagem mudará o tempo todo. Em nuances de novas luzes, relevos e cores de coisas. Tudo será diferente. Estando a caminho de casa, reparo o quanto fostes gentil em deixar que a realidade me mostrasse com fluidez nossa separação. Foi assim. Entretanto, insisto: em ti permaneço. Nosso passado, somente, será guardado em alguma gaveta. Pois pessoas não são épocas. Não as deixo pra trás. Nossa belíssima e pequenita vivência, cheia de esperança, ficará no mundo das lembranças.

E um novo vento, talvez, tornará possível essa aventura no futuro.