Redenção.

Montado em minha jovem égua, e longe de qualquer cidade, parada ou destino final, me deparei com uma silhueta sinistra. Um monstro bizarro, disforme - imóvel - de expressão congelante. Sua forma humanóide lembrava um homem escuro em andrajos. Se não fosse tão gigante, teria a certeza de que fosse um.

Meu amigo, tremi na base. Imaginei a jornada indo ao fim em instantes! Tantos vilarejos, e vidas que ajudei passando pelos olhos, como nos conhecidos relatos! O demônio encarou-me como quem avaliasse a alma, e perfurou-me o espírito, lhe juro! Mal consegui desembainhar meu sabre após tamanha demonstração de imponência:

_ Tu. Tu és nobre como homem, mas teu nome foi manchado por tua esposa. Ela te acusa, por não amá-la. Por rejeitá-la. E entregou a mim sua alma em troca de justiça.

Aquela megera! “Justiça”, ele disse! A ira me consumiu Esquilo, e a lâmina brandiu pelo sangue daquela criatura! Contudo, a velha égua, já habituada aos encontros nocivos e vilanias dos caminhos, desviou-se durante a investida. Só me restou aproveitar o impulso para saltar, e cravar minha arma no ventre do gigante escuro:

_ Eu fiz tudo. Tudo! Me arrependo de coisas, mas jamais a coloquei em posição de duvidar de meu amor, isso é obra tua, lacaio da Besta! - e enquanto falava, triturava a barriga dele, e me regozijava em ver minha honra sendo vingada.

Tinha planejado absolutamente toda jornada no mapa, mas jamais pensei que de meu lar partiria tamanho obstáculo. Cada passo tomado havia sido cuidadoso, como tudo em minha vida, que vivo à minha maneira. A criatura aproveitou a proximidade oportuna para golpear-me com o braço, e voei vários metros adentro à mata. Foi irreal!

Só precisava de mais alguns segundos para golpeá-la e arrancar as maldições que brotaram de sua garganta. Mesmo se contorcendo em  dores e vômitos, arrancou o sabre de seu ventre pútrido, o jogou em direção da amedrontada égua e gruniu suas pavorosas frases:

_ O sangue da vida que tua mulher tinha no ventre irá salvar-me de tua ira, nobre guerreiro! Não perca tempo tentando me impedir de viver de tua desgraça, pois teu único filho já se foi. E digo único porque não terás mais nenhum em toda a existência. Esta é a justiça para quem reprime o gesto do amor. A perda.

Ah, meu amigo, eu fiz tudo! Não disse, talvez devesse tê-lo feito! Chamado o monstro de volta, mas fiz tudo à minha maneira. Como poderia adivinhar o que deveria dizer a minha mulher? Ou para o demônio? Se não sou eu mesmo, não sou nada! Eu digo o que sinto, e não sou de ajoelhar. Muito menos digo palavras de quem se ajoelha!

Esquilo, registro contigo minha desgraça e minhas lágrimas, partes da derrota ocorrida. Diga a ela se quiser, pois lá não voltarei. Enquanto minha falha me corroer os tímpanos, meu peito, e de meus colhões não jorrar mais vida, não sossegarei em minhas cobertas. Não me abrigarei mais em seu corpo.

Está escrito. Em algum lugar deste caminho estará minha redenção.